“Jamais imaginei que viveria só trabalhando com pedais de guitarra”

Published on agosto 12th, 2011

Se você gosta de Pedais, certamente já ouviu falar da EFX. Se não ouviu, é bom procurar saber o que está acontecendo. Presente em boards de vários guitarristas (incluindo pesos-pesados como Jr. Tolstoi), a EFX está há 10 anos buscando atender as necessidades dos guitarristas brasileiros sem que seja necessário assaltar um banco para isso.

Confira a entrevista que fizemos com Eugênio Gregório, a cabeça por trás da EFX.

EFX+Pedais+logoefx_b

Pedais & Efeitos: Há quanto tempo existe a EFX?

Eugênio: Em 2002 eu comecei a fazer pedais por curiosidade mesmo. Como estava ainda estudando engenharia elétrica, comecei a pôr em prática algumas coisas que aprendi e pesquisava muito sobre todos os tipos de pedais. Acho que cheguei a montar no protoboard uns 400 esquemas de pedais. Tudo que eu baixava na net, queria montar. Assim comecei a conhecer bem todos os tipos de pedais de todas as marcas. Daí, aos poucos o trabalho foi sendo divulgado “boca a boca” e chegou uma hora que eu tive que oficializar, abrir empresa e tudo o mais, pois o negócio começou a tomar proporções maiores do que eu imaginava.

Pedais & Efeitos: Você foi um dos pioneiros em se tratando de pedais Hand Made Brazucas. No início dava pra imaginar que tomaria toda essa proporção?

Eugenio: Jamais imaginei que viveria só trabalhando com pedais de guitarra. Na verdade comecei a fazer porque um amigo da minha banda falou “ei, você não estuda eletrônica? faz um pedal de tremolo para mim!”. Aí deu um click na minha cabeça: “poxa isso deve ser interessante” e comecei a pesquisar. Daí fiz um tremolo. Depois, uma banda que ensaiava no mesmo estúdio viu e pediu para que eu fizesse um Big Muff. Então foi indo dessa forma. Montei um álbum de fotos dos pedais, depois um site e foi tudo crescendo por si só, nada foi intencional. Foi a demanda que gerou a empresa. Até então eu estava ainda procurando estagio na faculdade, depois vi que era só me formar e me dedicar somente aos pedais que daria mais certo.

entrevista2Pedais & Efeitos: Qual foi o primeiro modelo vendido por você? E qual foi o sentimento depois que vendeu?

Eugenio: Foi esse Big Muff que falei. Ele foi feito nessa caixa que monto os pedais valvulados hoje em dia. A arte fiz no paint, imprimi em transparência colada com contact, ficou bem parecido com o original. Por dentro é que eu prefiro nem comentar, era ainda bem amadora a construção. Vendi por R$80, se não me engano, daí comecei a pensar “de repente pode dar certo isso!”.

Pedais & Efeitos: Há algum tempo atrás os pedais da EFX passaram por uma total revolução estética. O que te motivou a isso?

Eugenio: Eu estava bem insatisfeito com o tipo de acabamento que utilizava nos pedais. Usava uma caixa de passagem de fios, comprada em loja de material de construção, a arte era feita no Word, impresso em transparência de retroprojetor colado com contact. Alem de ser cara, eu achava meio caseira demais, estava querendo dar um passo adiante. Conversando com o João da 56inc e com alguns funcionários de uma gráfica aqui perto de casa, cheguei à conclusão de que o ideal seria um adesivo com uma arte bem chamativa, para combinar com as novas caixas que havia encomendado da metalúrgica. Nessa época eu já tinha uma comunidade no Orkut com bastante gente participando e lancei a oportunidade aos designers para desenharem algumas artes para esses pedais. Acabou que foram uns 5 ou 6 designers e cada um fez umas 5 a 10 artes. Deu certo! Tudo bem colaborativo e todos foram pagos com pedais. O legal é que todos os designers eram guitarristas, assim como todos que geralmente fazem algum serviço para mim, tipo site ou algum design dos pedais.

Pedais & Efeitos: Você já está há quase 10 anos nesse mercado. Ainda acha que existe preconceito e/ou desconfiança por parte dos guitarristas brasileiros no que se refere a pedais fabricados aqui?

Eugenio: Eu acho que o Brasil é um pais muito grande e existe público para tudo. O que eu percebi que aconteceu nesses últimos 10 anos foi que antes as pessoas queriam apenas uma versão mais barata de um pedal gringo, apenas porque não podiam pagar o preço de “boutique” praticado lá fora. Então eu vendia os pedais a 1/4 do preço do original. Hoje em dia vejo que as pessoas procuram apenas produtos bons que atendam suas necessidades. Claro que a referência ao pedal original é um atrativo, mas a exigência hoje é maior em relação à qualidade de componentes e do timbre final. A procura é mais por buscar o timbre perfeito do que economizar uns trocados.

Pedais & Efeitos: Qual o pedal campeão de vendas da EFX até hoje?

Eugenio:
Por incrível que pareça, não é um pedal! É o Power Supply, a fonte para alimentar os pedais. Seguido de perto pelo Tube Baby, que, apesar de ter sido lançado há pouco, tempo tem tido uma aceitação muito grande. Quando fiz esse pedal, tinha já o Super Screamer (baseado no tube screamer), o Sparkle Pedal (baseado no sparkle drive) e o Bebê Preamp (baseado no BB Preamp). Todos os 3 são nada mais que Tube Screamers melhorados de alguma forma. Aí resolvi pegar e agregar tudo que cada um tinha de melhor e fazer “o melhor Tube Screamer do mundo” (pelo menos na minha cabeça essa era a intenção). Daí criei o Tube Baby e acho que era o que o pessoal estava esperando há tempos, porque teve uma aceleração de vendas muito grande.

Pedais & Efeitos: E na sua opinião, qual o melhor pedal da EFX? tubebaby

Eugenio: Difícil te dizer. Geralmente eu projeto os pedais pensando nas necessidades de quem vai usar, o tipo de som. Sou muito exigente e tenho um ouvido bom, modéstia à parte. Por exemplo: o Tube Baby eu jamais utilizaria na minha banda (toco Punk Rock na banda Phobia), mas quando o fiz procurei testar como se eu fosse um guitarrista de blues, para ficar um timbre bonito. Sempre penso dessa maneira em relação a todos os pedais. O pedal que eu uso é algo próximo do Shredder, modificado a meu gosto. Alias só uso ele e o afinador, e mais nada. Tem gente que imagina que tenho um pedalboard imenso, que nada!!! haha.

Pedais & Efeitos: Como você decide quais pedais vão ser lançados? É por algum projeto legal que você viu/ouviu ou pelo pedido dos clientes?

Eugenio: Eu penso sempre na necessidade dos clientes. Penso que tal pedal de repente pode suprir a necessidade de alguém, como esses pedais de loop, o buffer, Power supply. Ou seja, que não são exatamente pedais, mas que podem ter uma aceitação boa. Como mantenho contato direto com os clientes por e-mail, telefone e redes sociais, fica mais fácil identificar o que daria certo ou não. Muitos pedais só estão aí sendo vendidos porque alguém um dia me pediu pra fazer alguma coisa diferente com os pedais. Por exemplo: o Loop Inverter, o cliente queria colocar o wah wah horas antes dos pedais, horas depois dos pedais, assim vai. Meu norte é a necessidade dos guitarristas ou baixistas, tanto é que criei a sessão de baixistas no site, porque comecei a atender vários clientes que tocavam baixo e ainda eram inexperientes no mundo dos pedais.

Pedais & Efeitos: Existe algum pedal que vc fez que achou que ia vender muito e por um motivo ou outro não teve a demanda que você imaginou?

Eugenio: Teve sim. O pessoal na comunidade do Orkut me pressionou para fazer um clone do Seek Wah da Zvex. Daí fiz uma versão chamada Sick Wah. Tirei fotos, coloquei no site, coloquei um preço bem em conta, acabou que vendi 1 só, depois desisti de comercializá-lo por vários motivos, não estava muito legal o som dele. Outro foi o Dr. Octaplex, uma versão do Octave Multiplexer, que não funcionava bem em certos tipos de captação com saída mais alta. Então se for para gerar divergências ou insatisfações, prefiro cancelar a venda e trabalhar com produtos que agradem a todos.

Pedais & Efeitos: A EFX é uma “empresa de um homem só”, correto? Como você consegue dar conta de produzir, divulgar, atender clientes e vender seus pedais?

pwEugenio: Não sei se posso dizer que a EFX é uma “empresa de um homem só”. Eu não conseguiria nada se não fosse a colaboração de muita gente, amigos, ou pessoas que prestam serviços terceirizados, como os designers que desenharam as artes, a empresa que me fornece as caixas já furadas, a outra empresa que produz os circuitos impressos, o cliente que em troca de algum pedal fez uns vídeos e colocou na internet, ou vocês dos blogs que ajudam a tirar duvidas dos clientes e divulgar ao mesmo tempo. Todos tem uma participação importante. Hoje em dia eu conto com os serviços de uma pessoa que solda os circuitos para mim, isso me ajuda a ter tempo de cuidar das vendas, manutenção de estoque, responder em média uns 80 e-mails por dia e todo tempo que me sobra eu procuro usar para estudar, ler livros sobre empreendedorismo e administração de empresas, sempre visando melhorar tudo que é possível de ser melhorado.
Tento maximizar ao máximo e automatizar tudo que posso, só assim consigo dar conta da demanda. Existe todo um mecanismo que a EFX funciona, depende de muito controle, disciplina e uma logística que precisa ser impecável para conseguir cumprir sempre o prazo das encomendas.

Pedais & Efeitos: Qual o próximo lançamento da EFX? Tem alguma coisa em vista?

Eugenio: Olha, tenho sempre várias ideías, alguns valvulados baseados em outros modelos de amplis (mesa boogie por exemplo), mais pedais de loop, wah wah, synths, pedalboards, amplificadores. Mas ao mesmo tempo eu estou tentando “enxugar” um pouco a quantidade de pedais para facilitar o meu trabalho. Fora isso eu sempre vou lançar versões melhoradas de pedais que já existem, me baseando nas experiências dos clientes com os pedais, assim vou tentando deixar o pedal o melhor possível. Um exemplo é o Pure Plexi que antes não tinha boost, depois ganhou um boost fixo, e agora um boost independente, sempre visando as necessidades dos guitarristas.

Pedais & Efeitos: Agora o espaço é teu. Deixe um recado para os leitores do site (que pode ser um recado, um apelo, uma propaganda, uma promoção, você quem sabe)

Eugenio: Acho legal as pessoas prestigiarem os blogs sobre musica, guitarras, equipamentos, amplis, pedais, etc, pois tudo é um ciclo que vai voltar como benefício. Vocês acessam os blogs para obterem informações, a audiência do blog atrai as empresas, que ajudam o blog a escrever matérias cada vez mais interessantes, que gera mais audiência e tudo isso retorna como benefício pois vocês vão ter cada vez matérias mais legais, que vão ajudar muito quando precisarem de algo relativo a equipamentos. Todo mundo se beneficia. Então vale a pena participar e prestigiar os blogs, as redes sociais, as empresas pequenas ou “handmades” que estão fazendo um trabalho bacana aqui no Brasil. Quem compra produtos feitos aqui, estão contribuindo não só para o crescimento do país como também para o crescimento da qualidade dos serviços que essas empresas prestam. Tudo isso gera um ciclo que beneficia a todos, então vocês são a parte mais importante de tudo.