Entrevista: Deep Trip!

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Entrevista: Deep Trip!

Se teve uma empresa que passou por mudanças e reformulações foi a Deep Trip Pedals. E depois dessas mudanças e ajustes a empresa parece pronta para retomar o seu caminho e conquistar o mundo. Buscando um caminho sustentável sem deixar de cuidar da qualidade e visual dos seus produtos, eles vão causar muto barulho nesse mercado.

Confira o papo que tivemos com o cara por trás disso tudo, Du Menegozzo e duvide se for capaz…

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Pedais & Efeitos: Du, como começou o seu interesse por pedais?

Du: Toco guitarra há quinze anos e sempre tive curiosidade pelos aspectos técnicos envolvidos no som. Há cerca de dez anos, entrei no curso de luthieria da B&H de SP por hobby, construí minha primeira guitarra e foi esse o caminho para eletrônica. Apesar de me interessar pela parte da madeira, o que realmente me fascinava era o que havia entre os captadores e o cabo, logo minhas primeiras guitarras estavam cheias de chaves e controles diversos, com captadores trocados etc. Daí a aprender mais sobre eletrônica foi um caminho natural: comprei livros, revirei a internet, arrumei um emprego relacionado e em pouco tempo estava experimentando projetos antigos e correndo atrás de componentes pelo mundo. Ali percebi que não tinha mais volta!

Pedais & Efeitos: E em que momento surgiu a idéia de tornar esse interesse um negócio?

Du: Num curso de eletrônica conheci quem seria meu futuro sócio e começamos a nos reunir pra compartilhar o que montávamos com o aprendizado do curso. A vontade de largar nossos empregos e fundar a Deep Trip surgiu basicamente porque tínhamos montado um monte de projetos antigos e não ficávamos totalmente satisfeitos com nenhum. Com a experiência fomos modificando e acrescentando coisas novas, tentando corrigir o que nos incomodava… de repente notamos que tínhamos um monte de projetos IMG_0518diferentes nas mãos, daí surgiram os três primeiros lançamentos! Nunca escondemos que aqueles projetos tinham partido de modelos antigos descontinuados, eram de certa forma uma expansão daqueles modelos minimalistas de dois ou três transistores de quarenta anos antes, com mais possibilidades, mais controles e algumas melhorias do século XXI. Estou levando esse mesmo conceito alguns degraus acima com a nova linha de pedais.

Pedais & Efeitos: A Deep Trip começou com uma proposta bem inovadora no que tange ao visual e acabamento dos pedais, lançando três pedais de Fuzz na época. Você sempre considerou essa questão estética fundamental nos seus produtos(sem, obviamente esquecer dos timbres)?

Du: Eu acho que a conexão entre música e estética é fortíssima e impossível de romper, pois arte é arte, se conectam de forma muito profunda. As influências estéticas da Deep Trip sempre estiveram relacionadas às capas de discos, pôsteres antigos, cultura pop de décadas passadas e diversos outros elementos que pra mim estão na mesma árvore da música (alguns no tronco, outros como folhas) e, portanto, diretamente relacionadas aos pedais. Não vejo essa divisão de estética e som como se fossem coisas diferentes combinadas num pedal, elas são a mesma coisa, vem do mesmo lugar. Quando se é músico ao desenvolver um equipamento, visando um timbre específico, deve vir junto a imagem relacionada; ou tem arte, ou não tem arte alguma. Se junto com o som não veio imagem nenhuma, é só um amontoado de peças sem vida, ou então um projeto copiado de outro lugar. Então minha resposta é sim, a questão estética é fundamental nos pedais pois faz parte do mesmo contexto do timbre que norteia o desenvolvimento do circuito. Tentamos desde o começo viabilizar tecnicamente isso na Deep Trip, ou seja, encontrar maneiras de colar essa imagem na caixinha de cada pedal, pra transmitir a mensagem de maneira mais completa.

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Pedais & Efeitos: Porque lançar logo três pedais de Fuzz de uma vez?

Du: Foi uma conjunção de fatores da época (2007) que envolviam tanto o que acontecia no mercado quanto os nossos gostos e pesquisas. Nos interessávamos muito pelos timbres de fuzz, na época não eram tantas as opções no mercado como hoje, conseguimos bons fornecedores de transistores de germânio antigos, encontramos nossas “receitas” preferidas pra alguns circuitos e daí surgiram o Kryptone (descendente do Vox Tonebender mk I) e o Hellbender (neto do Colorsound Tonebender mk II). Também nos interessava muito o Fuzz Face, mas como já existiam diversos fabricantes explorando variações de germânio, resolvemos fazer o nosso com transistores de silício com características bem específicas, pra oferecer algo diferente. Como o que acrescentamos de circuito e controles ia muito bem nos três circuitos, apenas adaptamos cada solução a cada circuito e ficamos com três “irmãos” de fuzz, cada um cobrindo uma área diferente de timbres.

Pedais & Efeitos: A Deep Trip passou um tempo parada, em termos de produção/divulgação. Que ajustes e mudanças foram feitos nesse período para que a empresa continue conquistando clientes e espaço no mercado?

Du: A parada ocorreu porque desfizemos a sociedade e vi nisso a oportunidade certa pra rever todos os processos. Começamos soldando resistores num apartamento de 70m2 e chegamos a vender pedais na Pro Guitar Shop dos EUA, com o Hellbender grandão num anúncio da Guitar World americana! O objetivo era exatamente esse, mas o caminho foi longo e muita coisa precisava e podia ser revista. Além disso, adquiri uma coleção considerável de referências nesse período e queria usar essa pesquisa e esse aprendizado nos modelos da Deep Trip. Comecei desconstruindo cada circuito e refazendo a partir do zero, tomando como referências diversos pedais antigos originais e algumas réplicas, além dos pedais Deep Trip antigos. Fui colhendo opiniões de amigos e clientes, testando muita coisa e aperfeiçoando cada projeto enquanto resolvia também as questões burocráticas da empresa. Nesse período também redesenhei o Stormy Monday, um projeto de overdrive que não tínhamos chegado a lançar, e o usei como base pra criar o Tornado Tuesday, um overdrive/“vintage distortion” que leva o circuito do Stormy muito além em termos de ganho.

Pedais & Efeitos: Nós divulgamos a algum tempo atrás a arte e alguns detalhes sobre o Stormy Monday. Mas parece que os novos BOG e Kryptone vão sair primeiro. O que houve no processo? E já tem alguma previsão para o lançamento do Stormy?

Du: Usei o BOG e o Stormy para testar meus candidatos a fornecedores e aqueles que pegaram o primeiro projeto foram os escolhidos. Então, o Stormy vai passar pelo mesmo processo pra ser lançado em 2013, junto com Hellbender e Tornado Tuesday. Só estou esperando começar a produção do BOG e do Kryptone pra confirmar que está tudo correndo como deve, então os  outros três IMG_0350começaram a ser finalizados pra produção. Isso envolve não apenas desenho de placa e carcaça, mas também detalhes de montagem, engenharia interna e coisas que serão importantes pra garantir a entrega dos pedais no prazo, pra não ficarmos com fila de espera ou lojas sem estoque. Como quase tudo nos nossos pedais é único e feito sob encomenda, o processo de desenvolver e lançar não é tão curto como seria se comprássemos caixinhas prontas estilo Hammond, por exemplo. São necessários muitos testes e pequenos ajustes para que as coisas saiam redondas.

Pedais & Efeitos: Vamos agora falar sobre os novos BOG e Kryptone. Quais as principais novidades e diferenças deles em relação aos modelos antigos?

Du: Em primeiro lugar, estão bem mais silenciosos e com montagem bem mais limpa e segura, pois usei a experiência de produção dos anteriores para repensar carcaças, placas, montagens, componentes… e tudo isso somado, junto! Também estou importando resistores de alta precisão e baixo ruído da DALE (EUA) e capacitores específicos para áudio da WIMA (Alemanha), entre outros componentes de altíssima qualidade. Em termos de som, enquanto os modelos antigos começaram a partir do que tínhamos à disposição na época (internet e alguns pedais), os novos foram feitos com uma quantidade muito maior de informação (incluindo uma coleção de pedais raros originais dos anos 60). Isso mudou TUDO pra mim.
De maneira geral, os timbres estão muito mais refinados, soam muito mais próximos dos que ouvimos nos discos e que geralmente buscamos nos aproximar. Além disso, os novos filtros de graves e agudos permitem uma gama bem mais ampla de ajustes de timbres. Ao adquirir pedais antigos originais pra estudo e comparação, descobri muita coisa que não pode ser vista nos esquemas e nas fotos, características específicas de certos componentes e também efeitos colaterais da montagem e da escolha de peças. O resultado é que aprendi muito mais sobre os timbres antigos e transferi esse aprendizado para os meus pedais, tanto na escolha de peças quanto nas modificações dos circuitos, ajustes de filtros e pequenas correções.

Pedais & Efeitos: E também teremos um novo Hellbender?

Du: SIM! Ficou pra 2013, mas o circuito já está pronto na fila!

Pedais & Efeitos: Qual o seu pedal Deep Trip favorito?

Du: Entre os modelos de fuzz, sempre foi o BOG, por uma questão de gosto e estilo de tocar. Alguns guitarristas tiram timbres que acho incríveis com o Hellbender e com o Kryptone, mas é a combinação entre o estilo de tocar deles e a resposta dos pedais. No meu caso, o que funciona melhor é o BOG. Já somando os modelos novos, o Tornado Tuesday é um forte candidato a favorito. Inclusive tenho dito aos amigos que é o meu candidato a “best seller” da nova linha. Ele tem diversas qualidades de overdrive e distortion, somadas a algumas das características mais desejadas de fuzz (como a sensibilidade dinâmica, por exemplo). Tenho certeza que será muito popular!

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Pedais & Efeitos: Como funciona o processo de Desenvolvimento na Deep Trip? Quanto tempo leva do início do processo até o lançamento de um novo pedal?

Du: O desenvolvimento dos circuitos é feito por mim mesmo, sozinho, numa sala com guitarras, amps, minha coleção de pedais, computador, osciloscópio, gerador de frequência etc. Estou sempre experimentando com ideias e geralmente toco mais de um projeto simultaneamente. Alguns são pequenos módulos de amplificação ou equalização que podem compor futuramente um circuito maior, outros são mais completos, cheios de controles, que vou refinando, escolhendo quais controles são prioridade pro painel do pedal, quais serão simplificados pra tornar o pedal mais prático pro usuário etc. Só pra dar uma ideia, no momento tenho uma gaveta com ONZE circuitos montados em protoboards, para desenvolvimento ou refinamento: três são protótipos da linha de cinco pedais que já está encaminhada pra lançamento, os outros oito são circuitos diversos, a maioria ainda sem nome. Tem fuzz, overdrive, booster, pré-amp…
A inspiração para o desenvolvimento variam: podem ser pedais antigos que carecem de versões atuais que capturem todo aquele timbre sem os problemas dos anos 60, podem ser sons de discos que eu esteja ansioso pra tentar reproduzir, podem ser problemas guitarrísticos específicos do meu set de pedais ou de amigos…
O processo até o lançamento costuma demorar bastante, justamente porque costumo tocar diversos projetos simultaneamente. Gosto de deixar o projeto descansar na gaveta, mexer com outras coisas durante algumas semanas, depois pegar novamente pra ver se ainda me agrada. Nossos ouvidos vão se acostumando, é preciso pegá-los de surpresa de vez em quando… as novas versões de BOG, Kryptone e Hellbender nasceram assim, depois de muitos e muitos meses de testes, modificações e dezenas de esquemas diferentes pra cada um. Muitos guitarristas tiveram a oportunidade de participar do processo ao longo desses meses e deram suas inestimáveis opiniões e contribuições pra que os modelos fossem fechados como estão hoje.

Pedais & Efeitos: Na sua opinião, qual é o principal diferencial competitivo da Deep Trip?

Du: No mercado específico de pedais para timbres vintage (principalmente de fuzz), a regra predominante do mercado é fazer réplicas ou quase réplicas. Se o circuito não é idêntico a um pedal antigo, tem apenas pequenas modificações de valores de componentes ou um ou outro controle extra; mas a concepção básica é sempre presa dentro daquele espaço limitado do circuito reduzido antigo. Isso parte do pressuposto de que a mágica daqueles circuitos está ligada a seu tamanho reduzido e por isso fizeram tantos timbres mágicos que ouvimos nos discos. IMG_0345
Isso não é verdade. Primeiro: nos anos 60 os componentes eletrônicos eram muito mais caros do que são hoje (em alguns casos mais de dez vezes!), logo era inviável um pedal relativamente barato ter um circuito grande e ainda ser lucrativo. Segundo: nas gravações que ouvimos as guitarras foram processadas por mais uma infinidade de periféricos, como compressores de estúdio e equalizadores complexos, isso sem contar a coloração de microfones, pré-amplificadores etc.
Logo, o principal diferencial da Deep Trip é o foco no timbre, não em circuitos replicados. Ao invés de ficarmos satisfeitos e acomodados reproduzindo o mesmo circuito antigo de novo e de novo (que tem seu valor histórico e suas qualidades, mas não tem milagre nenhum), investimos em desenvolver e fabricar circuitos mais caros e mais complexos porque é assim que ouço os timbres nos discos e é assim que os pedais soam melhor. Um guitarrista com experiência em pedais de fuzz antigos e réplicas percebe que os Deep Trip carregam aquela alma dos circuitos e modelos antigos, mas vão muito além no refinamento de frequências específicas e nas possibilidades de uso e de controles, sem contar os antigos problemas resolvidos (como os problemas de impedância do circuito do Fuzz Face). É como ter à mão muito mais ferramentas para trabalhar, o resultado final fica muito mais completo.
Eu aposto que aqueles indivíduos dos anos 60 desenhariam circuitos muito mais complexos para os pedais se estivessem aqui, então é exatamente isso que eu faço. Tento capturar aqueles timbres que estão na base do rock desde os anos 60, mas desenvolvendo sem essas limitações comerciais que existiam na época.

Pedais & Efeitos: Você continua trabalhando no desenvolvimento de algum novo pedal ou o foco agora está em colocar os novos modelos no mercado?

Du: Como eu disse acima, estou sempre com uma quantidade grande de circuitos em processo de desenvolvimento. Mas no momento o foco é começar a produzir os cinco modelos que já estão fechados e a partir daí diversificar a linha com os outros projetos que forem sendo definidos. Mas não tenho dúvidas que vão sair dois ou três novos pedais daquelas placas que estão na minha gaveta agora.

Pedais & Efeitos: Du, muito obrigado por essa entrevista. Agora o espaço é seu. Quer deixar algum recado para os nossos leitores?

Du: O recado que eu gostaria de deixar como fabricante de pedais para os usuários é para que as pessoas aproveitem ao máximo a quantidade de informação disponível na internet. É claro que há bastante informação errada e incompleta, mas hoje é possível ouvir, ver e conferir detalhes de praticamente qualquer coisa à venda no mundo. Informe-se, aprenda e use essa informação pra decidir o que você quer comprar e o que vai resolver de verdade seus problemas. Sites como o Pedais & Efeitos são ótimos pra isso! Em outros países, com salários mais altos, os guitarristas tem a chance de comprar e vender pedais mensalmente até encontrar o que mais lhe agrada; aqui, como não temos tanto dinheiro, é mais importante ainda trocar informações pela internet! Até aprender o básico sobre componentes eletrônicos e sobre montagem pode ser extremamente útil pra quem vai investir seu suado dinheiro em um aparelho. Então minha recomendação é: conheçam melhor o que vocês compram! Obrigado!

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